Tinha um gênio
forte e fazia se impor em qualquer ambiente: sabia argumentar, mas se fosse
preciso intimidar quem quer que fosse, não perdia tempo. Seus chefes se
acostumaram com seu jeito e seus colegas a protegiam. Era querida e estimada
por ser uma funcionária como poucas.
Via no trabalho o
seu principal motivo para viver, pois não era feliz naquele casamento: se
casara muito jovem com o primeiro namorado e o passar do tempo, junto com o
nascimento de três filhos, transformaram aquele jovem cabeludo e atlético em um
velho barrigudo e careca, que não gostava de trabalhar e, ainda por cima,
mulherengo.
Era um pé-de-boi,
como sua avó gostava de lhe chamar. Enquanto o marido vivia inventando formas
de ficar milionário (sempre se ferrando!), ela com seu emprego e seu modesto
salário ia criando os filhos, pagando o colégio, a faculdade.
Assim, depois de
anos de labuta, os filhos se formaram e conseguiram bons empregos. A baixinha
morena de sorriso largo e gênio complicado havia cumprido sua missão. Que
viessem os netos que ela ainda teria energia. Havia se aposentado, mas a tarefa
continuava.
E apesar do velho
barrigudo e careca, ainda se sentia uma mulher cheia de vida, pronta para os
trancos do cotidiano.