Quando a conheci era uma moça comum, com
suas costumeiras qualidades e defeitos; assim eu achava que ela era e não me
preocupei se ela gostasse ou não de mim.
Me recordo bem do seu corpo: era magra,
mas tinha curvas, seios bem feitos e bumbum era empinado. Não tinha muita
altura, mas isso não afetava o conjunto estético da cabrocha.
Todavia, dois pontos a deixavam insegura
com relação à sua imagem: seu cabelo e seu nariz. Seu cabelo era bonito,
todavia era muito crespo, o que a deixava com um certo complexo, pois
aconteciam aquelas piadinhas: “seu cabelo é criminoso: ou tá preso ou tá
armado!”.
Usava a famosa chapinha para que fosse
alisado, mas um dia, resolveu assumir seu cabelo como era e isso a deixou mais
confiante. Que fosse assim mesmo, iria se aceitar como era.
Poucos sabiam que havia tomado esta
decisão após fazer parte de um grupo nas redes sociais chamado “Orgulhosas dos
Cachos”. Se sentiu parte de um grupo e isso a fez se sentir melhor.
O outro ponto era o seu nariz; não
gostava do formato, o achava muito pequeno. Assim, fez uma cirurgia e
apresentou seu nariz novo, a ser pago em pequenas prestações a perder de vista.
Mas, apesar de tudo, não se sentiu mais
realizada; havia passado por vários relacionamentos e não havia se firmado em
nenhum deles; houve traições ou simplesmente havia caído na rotina e acabou-se.
E assim, às vésperas de completar meio
século de vida, ela não entende os homens e a sociedade opressora que está ao
seu redor: seus cachos são lindos e seu nariz de princesa é belo. Todavia, seu
gênio irritadiço e brigão não podem ser mudados: para isto não existe rede
social ou cirurgia que resolva.
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