terça-feira, 31 de dezembro de 2019

6


Quando a conheci, fiquei encantado com seu jeito único de fazer as coisas, de ser ao mesmo tempo tão doce e também exigente, de se fazer respeitar com um único olhar, sem dizer palavra alguma. Tinha receio de ter uma chefe do sexo feminino, mas todas as minha dúvidas se dissiparam. Me sentia valorizado em trabalhar naquela empresa.

O tempo passava e eu queria saber mais sobre ela: apesar de haver passado dos quarenta e não ser um exemplo de beleza, tinha seus atributos que tanto me fascinavam.

Em alguns meses, já havia levantado a ficha completa e fiquei ainda mais surpreso que apesar das dificuldades, ela havia superado e havia conseguido se firmar na vida.

Havia se casado muito jovem, forçada pelos pais devido a uma gravidez indesejada. O marido era um vagabundo que usava até o carro que ela havia comprado com dificuldades para encontros com as prostitutas.

E vencendo a cada desafio, conseguiu que o filho estudasse nos melhores colégios e se formasse. Logo se separou do marido e estava arrumando sua vida.

Ao ouvir esta história, me senti muito atraído por ela. Não podia conter a minha admiração, pois sempre gostei muito de mulheres independentes que moldam o seu próprio destino. Começou a nascer em mim uma paixão mesmo, algo que superava tudo o que já sentido por uma mulher.

Precisava dizer a ela sobre meu sentimento, mas como faria isso!? Tinha medo de ser mal interpretado por ela e pelos colegas que poderiam entender que estava interessado em apenas uma promoção.

Os dias se passavam e aquela angústia crescia em mim, não me deixando trabalhar ou fazer qualquer coisa direito.

Numa tarde, quando vi que ela estaria sozinha no setor de cargas, onde iria verificar as mercadorias que chegaram, decidi ser o melhor momento para falar com ela.

Quando ela foi com os papéis de conferência, esperei exatamente cinco minutos e fui atrás.

Ao chegar perto do local, me deparei com uma cena que me deixou com a boca seca: ela trocando beijos com o responsável pelo transporte. Beijos longos e intermináveis.

Soube, depois, que ele tinha mulher e dois filhos. O caso era conhecido em toda a empresa; somente eu, por ser novato, ainda não sabia.

Aprendi que nem tudo o que parece ser é e até as pessoas que mais admiramos têm espinhas quando olhamos mais de perto.



quarta-feira, 20 de novembro de 2019

5


Tinha um gênio forte e fazia se impor em qualquer ambiente: sabia argumentar, mas se fosse preciso intimidar quem quer que fosse, não perdia tempo. Seus chefes se acostumaram com seu jeito e seus colegas a protegiam. Era querida e estimada por ser uma funcionária como poucas. 

Via no trabalho o seu principal motivo para viver, pois não era feliz naquele casamento: se casara muito jovem com o primeiro namorado e o passar do tempo, junto com o nascimento de três filhos, transformaram aquele jovem cabeludo e atlético em um velho barrigudo e careca, que não gostava de trabalhar e, ainda por cima, mulherengo.

Era um pé-de-boi, como sua avó gostava de lhe chamar. Enquanto o marido vivia inventando formas de ficar milionário (sempre se ferrando!), ela com seu emprego e seu modesto salário ia criando os filhos, pagando o colégio, a faculdade.

Assim, depois de anos de labuta, os filhos se formaram e conseguiram bons empregos. A baixinha morena de sorriso largo e gênio complicado havia cumprido sua missão. Que viessem os netos que ela ainda teria energia. Havia se aposentado, mas a tarefa continuava.

E apesar do velho barrigudo e careca, ainda se sentia uma mulher cheia de vida, pronta para os trancos do cotidiano.


4


Havia se casado por amor e isto a deixava feliz e recompensada; algo que uma moça nova e virgem considerava em demasia.

Todavia, com o passar dos anos, o casamento esfriou e o marido tornou-se, no começo, indiferente, evoluindo para agressões verbais e, por fim, físicas.

Ela tentou salvar aquele casamento, mas no final das contas se separou, temendo que ele a matasse.

Assim, abalada psicologicamente, não quis mais se relacionar com homem algum. Era algo natural e aceitável, mas como era ainda jovem e bonita, sentiu falta de companhia.

E começou a namorar um rapaz que também estava desiludido com as agruras emocionais da existência. Um relacionamento de pessoas já doloridas pelas experiências amorosas.

Mas, como se tratava de um homem de poucas posses, mero funcionário público municipal com um rendimento bem baixo, logo ela se sentiu rebaixada naquela situação. O ex-marido podia ser violento, mas sempre lhe deu conforto e um cartão de crédito ilimitado. Ficavam as dores no corpo e na alma, mas sempre havia o consolo de um sapato italiano e ou uma roupa da alta costura.

Assim, o pobre servidor foi retirado da vida dela de maneira seca e direta, através de um mero telefonema.

O tempo passou e logo ela caiu de amores por um médico, muito famoso na região. Já tinha uma certa idade, mas ainda conservava seus encantos e logo o doutor estava apaixonado.

Foram morar juntos e ela viu surgir em seu coração uma dúvida: como manter aquele homem sempre ao seu lado? Como não ter dúvidas de que ele jamais a trocaria por mulher alguma? 

Após muito pensar, lhe veio a solução.

Começou a frequentar psiquiatras, psicólogos e até adivinhos: se dizia muito triste, tomada por uma melancolia profunda que nunca existiu.

O coitado do médico, com pena da sua companheira, satisfazia a todos os seus caprichos e sempre estava ao seu lado, onde quer que fosse.

Assim, fingindo um estado depressivo, fingindo tomar ansiolíticos, ela construiu o seu mundo de paz e tranquilidade, onde ela habita feliz e realizada.


segunda-feira, 18 de novembro de 2019

3


Quando a conheci era uma moça comum, com suas costumeiras qualidades e defeitos; assim eu achava que ela era e não me preocupei se ela gostasse ou não de mim.

Me recordo bem do seu corpo: era magra, mas tinha curvas, seios bem feitos e bumbum era empinado. Não tinha muita altura, mas isso não afetava o conjunto estético da cabrocha.

Todavia, dois pontos a deixavam insegura com relação à sua imagem: seu cabelo e seu nariz. Seu cabelo era bonito, todavia era muito crespo, o que a deixava com um certo complexo, pois aconteciam aquelas piadinhas: “seu cabelo é criminoso: ou tá preso ou tá armado!”.

Usava a famosa chapinha para que fosse alisado, mas um dia, resolveu assumir seu cabelo como era e isso a deixou mais confiante. Que fosse assim mesmo, iria se aceitar como era.
Poucos sabiam que havia tomado esta decisão após fazer parte de um grupo nas redes sociais chamado “Orgulhosas dos Cachos”. Se sentiu parte de um grupo e isso a fez se sentir melhor.

O outro ponto era o seu nariz; não gostava do formato, o achava muito pequeno. Assim, fez uma cirurgia e apresentou seu nariz novo, a ser pago em pequenas prestações a perder de vista.

Mas, apesar de tudo, não se sentiu mais realizada; havia passado por vários relacionamentos e não havia se firmado em nenhum deles; houve traições ou simplesmente havia caído na rotina e acabou-se.

E assim, às vésperas de completar meio século de vida, ela não entende os homens e a sociedade opressora que está ao seu redor: seus cachos são lindos e seu nariz de princesa é belo. Todavia, seu gênio irritadiço e brigão não podem ser mudados: para isto não existe rede social ou cirurgia que resolva.


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

2

Depois de uma década de namoro, ela finalmente havia conseguido o seu objetivo: seu namorado aceitava se casar. Todos os episódios de tristeza, das falta de fidelidade dele, enfim, tudo isso estava no passado agora. Uma nova vida começava e ela se sentia muito feliz com isso.

As relações com a família do namorado, agora marido, nunca foram tranquilas, pois a mãe dela não a aceitava plenamente. Acreditava que o filho merecia coisa melhor, segundo palavras da matrona. Mas, no fundo, se sentia aliviada por ele estar com alguém e tentaria, com todas as suas forças, agradar a sua nora. 

Nos primeiros meses, tudo era maravilha: ele a enchia de carinhos e fazia de tudo para ser o melhor marido que já havia pisado na face da Terra. Ela, por seu turno, se esforçava para ser a melhor esposa que um homem tivera nesse mundo. A rotina não poderia ser mais perfeita.  

Cada um em seu trabalho, se encontravam no final do dia, a maioria das vezes na casa da sogra dela. A matrona passou a tratá-la com mais familiaridade, e em alguns casos, passou a chamá-la de filha.

Nas reuniões familiares dele, as demais noras se sentiam rejeitadas, pois a matriarca só tinha olhos para ela. De fato, havia conquistado o coração e a mente daquela senhora, nao havia mais dúvidas.

Mas, o tempo foi passando. E a desconfiança passou a ocupar o espaço da certeza. Um certo temor passou a habitar o coração dela.   

Ele realmente havia parado com as aventuras, os encontros furtivos com outras mulheres. Poderia sair e beber com os amigos, não a incomodava, mas dividi-lo com outras mulheres seria demais.  

Passou a vigiá-lo, a controlar onde ele ia. Isso afetou seu comportamento no trabalho e seu rendimento caiu. 

Foi conversar com sua mãe, mas ela nada lhe ajudou, pois já estava acostumada com as agruras da vida e achava normal que um homem não fosse fiel a mulher. Ela aceitara isso uma vida inteira e disse a sua filha para fazer o mesmo.  

Logo as brigas ocupavam o lugar dos carinhos, as cobranças, dos beijos. Uma situação complicada se instalou entre os dois. 

Ela tentou procurar apoio com a sogra, mas foi pior. Ela a rechaçou por desconfiar de seu filho. A partir daquele dia, sua preferencia passou para as outras noras e, nas festas, ela passou a ser deixada de lado.

Tudo parecia caminhar para uma separação, todavia isso não aconteceu. 

Com o tempo, ela percebeu que sua vida não tinha a cor que queria, mas pelo menos, era colorida.

Que seu marido não era o cavaleiro no corcel branco, mas também não era o vilão de finos bigodes.   

Olhava para seu futuro e via uma infinita planície. Dedicava a sua vida a uma tola e venerada mediocridade. 

2011


     

quinta-feira, 16 de maio de 2019

1


   Quando X. me injuriou, na frente de várias pessoas, um desejo cego de vingança dominou meu coração e minha mente. Claro que não devemos praticar tais atos, seguindo os nossos ensinamentos cristãos, mas, como não sou nem quero ser, perfeito, sabia que, enquanto não fizesse algo a respeito não teria paz e sossego. Precisava disso para continuar minha vida pecadora.

    Conhecia X. de longa data; era uma pessoa muito boa, que gostava da companhia e sempre era visto nas festas que aconteciam em nossa cidade. Também fazia filantropia, sobremaneira quando podia tirar algum proveito. Era uma pessoa alegre, casado, com filhos. Alguém que você gostaria de conhecer, mas pensaria duas vezes antes de conviver.

    Ele tinha muitos gostos semelhantes aos meus e poderíamos conversar durante horas, bem como nossas posições políticas. Mas, se você queria realmente deixá-lo interessado numa conversa, era envolvê-lo numa conversa sobre automóveis. Esta, sem dúvida alguma, era sua paixão.

    O infeliz poderia ficar sem se alimentar, sem se vestir, poderia até ficar sem respirar, mas ficar sem carro era algo impensável. Sabia como poucos citar os termos técnicos de cada veículo, avaliar o desempenho de cada modelo, os prós e contra de cada marca. Era até educativo vê-lo dizendo que já tivera mais de uma dezena de carros ao longo de sua vida e que jamais perdera dinheiro na venda e na revenda dos mesmos.

    Ouvindo suas explanações foi que me concebi que meu desejo de vingança seria plenamente satisfeito usando sua paixão pelos carros. Seria um plano perfeito, bem executado e que não deixaria rastros.

    Nos próximos meses, arquitetei tudo com zelo e precaução; tudo tinha que estar bem concatenado para que o plano fluísse perfeitamente. Nada ou ninguém poderia me impedir de realizá-lo.

    Numa tarde, encontrei-o num bar, onde costumava passar o tempo com seus amigos; para minha sorte, ele estava sozinho. Comecei a entabular uma conversa amistosa sobre assuntos amenos. No final, já me despedindo, citei que havia comprado um carro, mas não tinha certeza de que havia feito um bom negócio.

    Jamais me esquecerei dos olhos dele: ficaram faiscando de curiosidade. Meu plano estava começando a dar certo.

    Disse que não precisaria se preocupar, que estava em seu período de descanso, que deveria ir para sua casa e ficar com sua família. Nada disso o fez demover da ideia: levantou-se, deixou o dinheiro de sua conta na mesa e, segurando meu braço, me fez levá-lo até onde estava o carro.

    Tentei fazê-lo desistir, mas debalde. Ele queria ver o veículo de toda maneira. Então satisfiz a sua vontade.

    Dias antes, havia ido à uma concessionária e consegui um carro para uma avaliação. Como tinha bons antecedentes e era conhecido, o dono fez questão que levasse o veículo e que fizesse uma avaliação de alguns dias, um tipo de test-drive mais prolongado. Assinei um termo de responsabilidade e saí dirigindo, sem despertar suspeita alguma de meu real proposito.
   
     O veículo era um modelo usado de uma marca famosa; contava apenas dois anos de uso e estava em ótimas condições de conservação.  

     Quando apresentei o carro a X., ele começou a me bombardear com termos técnicos, mas disse para darmos uma volta. Nos dirigimos para um lugar ermo, um mirante, perto de um penhasco no mar.

      Chegamos ao local, descemos do carro e começamos a ver o motor e outros componentes. Ele sempre muito entusiasmado, repleto de atenção para que eu realizasse ou não a compra.

      O local tinha um aclive que levava diretamente para o precipício. O carro estava a cerca de vinte metros do abismo, logicamente, com os freios acionados. Ele nem suspeitava do desfecho de tudo e continuava olhando cada detalhe do bólido.

      Num gesto rápido disse-lhe para entrar no veículo e me dizer o que achava do banco do motorista, se era confortável ou precisaria trocar. Ele, sem nada perceber, o fez.

      Então, rapidamente, destravei o freio de serviço, saindo do carro, pondo-o, em movimento.

      Ele, totalmente atônito, não teve tempo para tomar qualquer atitude; o carro ganhou velocidade e caiu no penhasco, sendo engolido pelo oceano em questão de segundos.

      No dia seguinte, fui à concessionária comunicar que o carro havia sido roubado; antes havia informado às autoridades policiais sobre o fato. O dono ficou um pouco nervoso, mas disse-me para ir embora, pois a seguradora cobriria tudo.
     A família de X. o procurou por algum tempo, mas sem sucesso. Logo se descobriu que o infeliz tinha uma amante, o que fez com que sua esposa desistisse de encontrá-lo. O caso foi arquivado pela polícia, meses depois. No consenso de todos, X. havia fugido com sua amante e jamais voltaria.

    Quanto a mim, jamais fui procurado para prestar esclarecimentos, mas lamentei a perda de tão estimada pessoa, fazendo um brinde em sua memória, no bar onde costumávamos ir.

    Somente no século XXIII, foi que alguns mergulhadores encontraram, no fundo do mar, um veículo do século XXI com um esqueleto dentro.

Requiescat in pace!

MMXII



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Quando a conheci, fiquei encantado com seu jeito único de fazer as coisas, de ser ao mesmo tempo tão doce e também exigente, de se fazer...