Quando X. me injuriou, na frente de várias
pessoas, um desejo cego de vingança dominou meu coração e minha mente. Claro
que não devemos praticar tais atos, seguindo os nossos ensinamentos cristãos,
mas, como não sou nem quero ser, perfeito, sabia que, enquanto não fizesse algo
a respeito não teria paz e sossego. Precisava disso para continuar minha vida
pecadora.
Conhecia X. de longa data; era uma pessoa
muito boa, que gostava da companhia e sempre era visto nas festas que aconteciam
em nossa cidade. Também fazia filantropia, sobremaneira quando podia tirar
algum proveito. Era uma pessoa alegre, casado, com filhos. Alguém que você
gostaria de conhecer, mas pensaria duas vezes antes de conviver.
Ele
tinha muitos gostos semelhantes aos meus e poderíamos conversar durante horas,
bem como nossas posições políticas. Mas, se você queria realmente deixá-lo
interessado numa conversa, era envolvê-lo numa conversa sobre automóveis. Esta,
sem dúvida alguma, era sua paixão.
O
infeliz poderia ficar sem se alimentar, sem se vestir, poderia até ficar sem
respirar, mas ficar sem carro era algo impensável. Sabia como poucos citar os
termos técnicos de cada veículo, avaliar o desempenho de cada modelo, os prós e
contra de cada marca. Era até educativo vê-lo dizendo que já tivera mais de uma
dezena de carros ao longo de sua vida e que jamais perdera dinheiro na venda e na
revenda dos mesmos.
Ouvindo
suas explanações foi que me concebi que meu desejo de vingança seria plenamente
satisfeito usando sua paixão pelos carros. Seria um plano perfeito, bem
executado e que não deixaria rastros.
Nos
próximos meses, arquitetei tudo com zelo e precaução; tudo tinha que estar bem
concatenado para que o plano fluísse perfeitamente. Nada ou ninguém poderia me
impedir de realizá-lo.
Numa
tarde, encontrei-o num bar, onde costumava passar o tempo com seus amigos; para
minha sorte, ele estava sozinho. Comecei a entabular uma conversa amistosa
sobre assuntos amenos. No final, já me despedindo, citei que havia comprado um
carro, mas não tinha certeza de que havia feito um bom negócio.
Jamais
me esquecerei dos olhos dele: ficaram faiscando de curiosidade. Meu plano
estava começando a dar certo.
Disse
que não precisaria se preocupar, que estava em seu período de descanso, que
deveria ir para sua casa e ficar com sua família. Nada disso o fez demover da
ideia: levantou-se, deixou o dinheiro de sua conta na mesa e, segurando meu
braço, me fez levá-lo até onde estava o carro.
Tentei
fazê-lo desistir, mas debalde. Ele queria ver o veículo de toda maneira. Então satisfiz
a sua vontade.
Dias
antes, havia ido à uma concessionária e consegui um carro para uma avaliação.
Como tinha bons antecedentes e era conhecido, o dono fez questão que levasse o veículo
e que fizesse uma avaliação de alguns dias, um tipo de test-drive mais prolongado. Assinei um termo de responsabilidade e
saí dirigindo, sem despertar suspeita alguma de meu real proposito.
O veículo era um modelo usado de uma marca famosa; contava apenas dois
anos de uso e estava em ótimas condições de conservação.
Quando apresentei o carro a X., ele começou a me bombardear com termos
técnicos, mas disse para darmos uma volta. Nos dirigimos para um lugar ermo, um
mirante, perto de um penhasco no mar.
Chegamos ao local, descemos do carro e começamos a ver o motor e outros
componentes. Ele sempre muito entusiasmado, repleto de atenção para que eu
realizasse ou não a compra.
O local tinha um aclive que levava diretamente para o precipício. O
carro estava a cerca de vinte metros do abismo, logicamente, com os freios
acionados. Ele nem suspeitava do desfecho de tudo e continuava olhando cada
detalhe do bólido.
Num gesto rápido disse-lhe para entrar no veículo e me dizer o que
achava do banco do motorista, se era confortável ou precisaria trocar. Ele, sem
nada perceber, o fez.
Então, rapidamente, destravei o freio de serviço, saindo do carro, pondo-o,
em movimento.
Ele, totalmente atônito, não teve tempo para
tomar qualquer atitude; o carro ganhou velocidade e caiu no penhasco, sendo
engolido pelo oceano em questão de segundos.
No dia seguinte, fui à concessionária comunicar que o carro havia sido
roubado; antes havia informado às autoridades policiais sobre o fato. O dono
ficou um pouco nervoso, mas disse-me para ir embora, pois a seguradora cobriria
tudo.
A família de X. o procurou por algum tempo, mas sem sucesso. Logo se descobriu
que o infeliz tinha uma amante, o que fez com que sua esposa desistisse de encontrá-lo.
O caso foi arquivado pela polícia, meses depois. No consenso de todos, X. havia
fugido com sua amante e jamais voltaria.
Quanto a mim, jamais fui procurado para prestar esclarecimentos, mas
lamentei a perda de tão estimada pessoa, fazendo um brinde em sua memória, no
bar onde costumávamos ir.
Somente
no século XXIII, foi que alguns mergulhadores encontraram, no fundo do mar, um
veículo do século XXI com um esqueleto dentro.
Requiescat in pace!
MMXII